Dengue: problema de um, problema de todos
Assim que mais uma temporada de chuvas se inicia, o sinal amarelo sempre é aceso. O perigo da Dengue se faz mais presente no verão, época da reprodução do mosquito transmissor, Aedes Aegypti. Todos sabem que a doença mata, e o que deve ser feito para combatê-la. Ou quase todos, pelo menos.
O que causa indignação nos moradores próximos ao estádio municipal é o acúmulo de lixo na propriedade de Raimundo Nonato, 53. Raimundo vende produtos recicláveis há mais de 10 anos, e utiliza-se de seu vasto terreno para estocar a céu aberto materiais diversos, desde papelão e plástico até pedaços de carros, caçambas ou pneus. Não à toa, o bairro concentra a maior parte dos casos de Dengue registrados nos últimos dois anos, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Mais preocupantes ainda são os dados vindos da capital: proporcionalmente ao número de habitantes, Remanso tem um dos três mais elevados índices de casos de Dengue per capita de todo o estado.
Questionado sobre o que pretende fazer para ajudar a mudar esse quadro, Raimundo demonstra pouco interesse. "Se eu largar isso aqui, eu vou viver de quê? A prefeitura vistoria o terreno todo mês, e nunca fui multado. Não vejo motivo para tanta reclamação dos vizinhos. O problema da Dengue não é só de uma pessoa, mas de todo mundo. Não vejo ninguém ir procurar por criadouros no cemitério." E finaliza com um surpreendente "estou de consciência limpa".
A Sucen, órgão da prefeitura responsável pelo controle de pragas e combate à Dengue, isenta-se argumentando que passa veneno por todas as residências ao menos três vezes ao mês, e que está dando o máximo na luta contra o mosquito.
"Isso é um absurdo!", reclama Marina Silva, que mora nas imediações do terreno. "Todo mundo por aqui na redondeza tem parente que tem ou já teve Dengue. Minha tia faleceu ano passado por conta dessa sujeira toda acumulada e ninguém faz nada, por ele ser parente do prefeito!"
Além da Dengue, o mau cheiro e a presença de animais peçonhentos também são reclamações dos demais moradores entrevistados. Pelo fato de o local ser aberto, há ainda o risco de crianças serem picadas ao permanecerem junto ao lixão.
O agravante do problema é que ele só passa a ser de cada um quando atinge diretamente a todos. Enquanto isso não acontece, é preferível deixar para que o outro cuide. A moradora indignada talvez não se importasse com a gravidade da doença caso não tivesse perdido um parente. Esperou acontecer o pior para começar a fazer a parte dela na própria casa.
Para o proprietário do lixão, a sua subsistência é mais importante do que a sua contribuição negativa para a saúde pública. Ele desvia o foco do próprio problema tentando apontar para problemas dos outros, e se satisfaz por estar quite com a prefeitura.
São dois retratos da triste realidade atual, onde os interesses próprios ainda se sobrepõem ao do todo. Após nova entrevista, dessa vez com o prefeito, este se comprometeu a acabar com o lixão nos próximos meses, numa tentativa de diminuir os números que estão fazendo a pequena Remanso se tornar a Cidade da Dengue. Já é um começo.
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